Os primeiros 12 meses

… já não é novidade que eu adoro a fantasia.
Que adoro fotografia e que tenho imaginação de sobra…
Acrescentem-lhe 2 bebés… e a criatividade não conhece limites!

Estas são as sessões mensais do primeiro ano dos meus pequeninos lindos.

O 1º mês foi difícil – um bebé em casa, outro ainda na incubadora…
Por isso, teve de se aplicar o pior photoshop style do mundo 🙂

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O 2º mês foi ainda mais difícil. Subitamente, tinha os dois internados, um em cada hospital. Mas não me deixei ir abaixo. Fotografei ambos à vez, retomei a tentativa falhada de photoshop e continuei a acreditar que em algum mês eu iria ter a sorte de ter os dois em casa.

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Ao 3º mês, já quase com 4 meses, o sonho realizou-se. O Outono já recebeu ambos os bebés em casa, para a sessão dos 3 meses. A felicidade foi tanta.

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O 4º mês já foi a junção de toda a magia. Natal… e uns filhos gémeos… Feliz, feliz, feliz…

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5º mês – Uma sessão de Inverno para o mês de Janeiro. Ainda cirurgias a decorrer, e muita preocupação. mas a normalidade fantasiosa destas fotos sempre a dar força para acreditar no mês seguinte.

Versão 2

6 meses e o amor sempre a crescer. Os meus cupidos em modo S. Valentim.

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7 meses – A Páscoa a acontecer e eles a crescer 🙂

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8 meses – Primavera por toda a azenha.

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9 meses – Festa da Música na cidade e o mês de Maio – mês em que os pais (músicos) se apaixonaram. E eles a colocarem-se em pé.

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10 meses – As marchas de Lisboa e os meus dois fanfarrões na marcha da Azenha.

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11 meses – o Verão a chegar e o tempo de descobrir a praia.

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12 meses – a junção dos brinquedos favoritos, dados pelas pessoas que os amam e que os ajudaram a descobrir muitas coisas.H 12 meses 0

Fazer as coisas que tinha planeado antes das doenças e dos internamentos era a minha forma de levar a vida em frente, de alguma forma normal. A minha maneira de não desistir.
E hoje… hoje fico muito feliz por ter conseguido isso e olhar para estas memórias maravilhosas, que espero também eles, venham a gostar (quando tiverem 40s… :P).

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Inverno ao calor dos 5

Inverno 1º trimestre de 2016

O tempo foi passando na azenha e o Inverno trouxe novas paisagens para explorar:

Histórias para contar no quentinho e brincadeiras entre irmãos sob o olhar atento do Mickey.

Danças ao colinho e música no sofá:

E sonecas à lareira, aquecidos pelo Simba (e pelo Bambi, o próprio…):

Se realmente dormissem tão bem, como parece nestas fotos, (e tivéssemos visitado menos hospitais), este Inverno tinha sido bem maravilhoso.

A primeira sessão de pais e filhos… that I will cherish forever…

28 de Janeiro de 2015

Estas fotos maravilhosas foram tiradas na véspera de mais uma operação do Gabriel.
Havia tensão, medo e ansiedade, mas tudo se transformou em beleza na hora de ficar com recordações eternas plenas de ternura e brincadeira.

Estas pérolas foram tiradas pela talentosa actriz, cantora e fotógrafa Patricia Resende (http://bit.ly/2y9gzDx) que com muito orgulho nosso, é tia escolhida dos nossos meninos.
Só um olhar de amor, poderia alcançar estes momentos.

Se há fotos que marcam uma vida, estas são decerto algumas delas.

…ambos em casa!

Escrito em Novembro de 2015

Finalmente, ao fim de mais de 2 meses e meio, os meus gémeos estão ambos em casa.
As primeiras batalhas estão vencidas. As primeiras duas cirurgias aos corações dos meus pequenos grandes heróis. Terminou a primeira fase de hospitais e enfrentaremos as próximas com a mesma esperança e amor.
Até lá, aproveitaremos todos os Halloweens, todos os Natais e os chamados dias banais para conter as suas lágrimas e usufruir dos seus sorrisos.
Vamos partilhando.
O tempo é de cansaço, muito. Mas a felicidade de os ver juntos, de os ter junto a nós… supera qualquer outro sentimento.
Tantos obrigadas da família pelas palavras de força recebidas de vós ao longo de toda esta luta.

A primeira foto de irmãos fora da barriga

A primeira foto de irmãos fora da barriga

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A minha primeira foto com os dois. Tão feinha como estética e tão, mas tão mágica.

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“Mais um tum-tum na oficina…”

Escrito a 25 de Outubro de 2015

Olá Gabriel
Meu reizinho mimado.
“Só quer conversa, cusquice e colinho” é o que ouço todos os dias 🙂
Deves vir a dar um técnico de informática extraordinário, tal é o tempo que passas a fazer registos nos computadores do hospital ao colo das enfermeiras, entretido, curioso e calmo.
Meu preguiçoso. Então não aprendeste nada com as histórias do mano comilão?
Esses biberões, não são para papar todos?
Bebé tonto da mãe, que não sabe que tem o irmão à espera para brincar, o Jack, o Mickey, o Simba…
E os pais…
Esperamo-te amor… Com a maior paciência do mundo, de acordo com o teu tempo, mas queremos tanto levar-te finalmente para casa… E já está tão perto amor. Meu herói valente. Faz só mais um esforço, que é tão pequenino comparado com tudo o que já fizeste.
Olho as fotografias ao longo destes 2 meses.
Muita gente não as consegue ver. Cheio de tubos, inchado, davas dó, provocas lágrimas.
Mas para nós, pais de meninos internados, não. Todos tiramos fotos, embevecidos. O mais pequeno esgar de sorriso por entre as máscaras é motivo de orgulho.
E é uma prova da vossa valentia!
A mãe agora tirou ao mano também, porque sei bem, que em crescendo um pouco, vão querer comparar tubos e cicatrizes quando souberem as histórias da vossa coragem.
Sorrio quando penso nisso.
O nosso sofrimento, no futuro, vai ser apenas uma história que vos contarei e que vos deixará orgulhosos e confiantes. Como a mãe deseja.
É tão bom amar-te pequeno grande Gabriel.

Olá meu pequenino Daniel.

Achei sempre que, apesar de maior, eras mais frágil que o mano.
Tive tanto medo por isso…
Afinal amor meu, és um homem grande!
No dia da tua operação preparámos o dia a rigor. Acordámos cedinho, cedinho, e da janela do hospital assistimos ambos ao nascer do sol. Nada mais belo na terra que vê-lo nos teus olhos…
A tua tez a ficar laranja do reflexo do astro rei. Os teus olhinhos a semicerrarem à medida que a sua luz se elevava no céu e a mãe a explicar-te tudo o que estava a acontecer.

E logo a seguir, tivemos a sorte de nos proporcionarem um salão de baile no nosso quarto.
Levaram a camita do lado e nós aproveitámos logo dançando valsas até adormeceres.
Depois esperámos, esperámos, enquanto a mãe desesperava. Tomara o tempo passado…
Foste operado ao entardecer.
Dei-te dos meus braços para os da enfermeira que te levaria para o bloco. Que dor tão grande. A angústia lancinante de não saber se te voltaria a ver…
Mas tenho dois filhos tão valentes. Também tu foste acordado, sem chorar.
A chorar ficou a mãe. O corpo a continuar o embalo que te estava a dar antes de te tirarem de mim.
E parti. Cheguei ao outro hospital e vali-me do teu irmão. Não te preocupes. É obrigação dele, porque te fiz o mesmo quando ele foi operado.
Absorvi todos os olhares que me deu, todos os risos e até o ralhar com ele para papar, me ajudou a fazer passar o tempo.
Sabes que mais? Nem só eu e a tia Lígia estávamos nervosas naquela sala.
Mesmo só te tendo conhecido 10 dias quando nasceste, dada a proximidade que têm com o teu mano, as enfermeiras pareciam ainda mais ansiosas que nós.
Já tinham ligado várias vezes para o outro hospital. As médicas de serviço, a apoiarem muito, a darem abraços mesmo sem serem pedidos, a fazer telefonemas…
Soubemos que estavas bem ainda nem tinhas saído do bloco.
O mano recebeu um abraço tão forte de alívio, que não deve ter gostado nada…
A notícia a espalhar-se dos intermédios, aos intensivos. Toda a gente feliz. Que alegria amor, tanto apoio.
De então para cá em 2 dias tiraste o ventilador, o dreno, fizeste xixi, começaste a papar…
Oh meu amor, que diferença. Que alívio. Em 2 dias saiste dos cuidados intensivos. O mano foi em mês e meio, o que mais nos prova que o tempo dele foi tão dificil…
O cirurgião a descansar-nos: “correu muito bem”.
Que orgulho ver-te pequenino ainda sem 4 quilinhos, na cama gigante, muito acordado e sereno, como só tu, a observar tudo…
Em pouco tempo voltarás para casa.
A sorte que eu tenho de não me teres deixado, de me dares o privilégio de te continuar a amar…
Obrigada amor grande da minha vida.

Em pouco tempo irão finalmente os dois para casa…
Vai na volta (a esperança da mãe não morre), ainda vos pinto os bigodes, na noite das bruxas…

Daniel

Gabriel

2 meses de vida – a montanha russa

Escrito a 16 de Outubro de 2015

15 de Outubro
Hoje os meus meninos gémeos fazem 2 meses. Mas o sorriso que já voltáramos a ter desvaneceu-se, as lágrimas voltaram a cair, o universo deu-nos aos 4 uma nova batalha para travar…

Meu querido Gabriel

2 meses de uma vida que nos disseram ir terminar quando tinhas 10 dias.
Travaste a maior luta de todas as lutas que a natureza pode ter.
Encontraste a morte e disseste-lhe para esperar.
Sabias que tinhas muito amor para te receber. Sabias pelas descriçoes da mãe que a vida era dificil muitas vezes, mas que tambem valia tanto a pena. Conhecer as marés, as noites de estrelas cadentes, o sorriso de quem amamos e nos ama – o mais importante da vida.
Hoje, és um rezingão mimadinho (e a mãe que tinha tantas regras sabidas para aplicar à tua educação…) Ainda não conheces a tua casa, mas sei que és feliz. Heróizinho grande da neonatologia, quando os pais não estão, a vida é ao colo das enfermeiras que te adoram e te levam com elas para o computador.
Já respiras por ti, já não há tubos, já so falta conseguires beber 8 biberãos inteiros por dia sem a ajuda da sonda.
Não é fácil. Nunca o tinhas feito, e como nasceste prematuro, esse reflexo de mamar, não nasceu contigo.
Mas tu és um sabichão e vais tão bem lançado (não fosse esse soninho danado) que ao fim de 2 angustiantes meses, a tua tão esperada chegada a casa está para muito breve.
O orgulho que é ver-te sorrir, poder ralhar contigo quando resmungas… É raro chorares, mas resmungar meu amor… pareces um velhote rabugento! Ainda nem chegaste à primária e já levo queixas para casa da fisioterapeuta 🙂
Ao mesmo tempo és o rei do sítio, muito do sucesso devido aos teus olhos grandes que agora ávidos de tudo o que perdeste sedado, prescrutam a sala em constante descoberta.
Vais ver meu amor, como a vida é mesmo uma constante descoberta. Que tal como na tua sala, tem dores, muitas dores, lágrimas, ansiedade, mas também vitórias, conquistas, beleza, carinho… amor.
Ainda te falta mais uma operação até ao teu aninho. A mãe tem medo (a mãe anda uma medricas) mas ao mesmo tempo ensinaste-a a ter uma força desconhecida. Sobretudo uma capacidade de aceitação e de não preocupação antecipada. E esperança. Essa verde palavra que nos acompanha agora constantemente, porque é tudo o que temos.
Espero muito que tenhas dito à morte que só pode voltar quando tu fores bem velhinho depois de uma vida de paz e amor.
Eu, meu amor, serei tua até morrer.

Meu querido Daniel

2 meses juntos.
Sereno, distraído mas observador.
O meu amor por ti a crescer a cada olhar teu.
Ainda que estejas em casa e usufruas de tanto mais que o teu irmãozinho, não tem sido fácil.
Tens dois papás cansados de 2 meses em maratonas entre a casa e o hospital. Para além de teres as clássicas cólicas de bebé, tens duas hérnias que te dão imensas dores muitas vezes por dia, e que te fazem tambem ja teres visitado muitas urgências, vários hospitais.
Apesar disso sorris e estás um gorducho tão lindo. A mãe jura a pés juntos que hoje ao colinho do pai deste os teus primeiros sorrisos sociais para a mãe. Já não foram aqueles descarados que vocês fazem quando chegam à terra dos sonhos. Foram tímidos, de olhos nos olhos comigo, lindos demais. E pronto lá vieram as lágrimas aos olhos da mãe, tal como quando anteontem o mano bebeu o biberão todo 2 vezes seguidas.
Que vergonha a mãe andar tão chorona.
Mas esta felicidade tão grande, que maior não há, de a encontrarmos nas pequenas coisas, foi derrubada logo a seguir.
Que vontade que dá à mãe de não vos voltar a levar nunca mais a consultas… Não que tenhamos qualquer queixa das equipas que vos têm tratado, todos fabulosos.
Mas porque aos teus papás, têm a mania de dar más notícias.
Lembras-te do teu pequenino doi-doi no coração?
“Um sopro apenas para ser vigiado”?
Pois hoje numa dessas vigias… aqui estás…
Internado no mesmo hospital das lágrimas em que o teu mano esteve tempo demais, mal demais… a aguardar também tu, uma operaçao ao coração.
O teu doi-doi piorou. Igual ao do teu gémeo, um pouco menos grave e com a vantagem de teres muito mais peso.
Oh meu pequeno enorme amor…
Tu já eras herói para os pais…
Quando nós te dissemos que tinhas de respeitar o mano por (apesar de estar mais pequenino) ser 3 minutos mais velho, não queríamos dizer que o copiasses.
Então agora ao completares o teu coraçãozinho resolveste estreitá-lo como o do mano?
Mas que raio, se vocês até nem são assim tão iguais, porquê terem doi-dois iguais? E logo estes? Logo no coração?
Oh meu amor… estou zangada.
Não é convosco! Nem com ninguém!
Não penso nada aquelas frases “porquê a mim?” “porquê aos meus filhos?”. Nunca pensei.
Porque não a mim? Porque não a vocês? Não somos mais nem menos que os outros pais a quem acontecem tormentos iguais ou piores que estes.
Também não acredito, porque nunca acredito nisso, que seja castigo, penitência, maldição ou “mau-olhado”…
É um designio. E tenho de o aceitar.
Estou zangada simplesmente. Hoje mais do que triste, estou zangada.
As equipas clínicas de ambos os hospitais, que já nos conhecem tão bem, ficaram realmente tristes. estávamos tão pertinho de estarmos todos juntos…Recebemos vários abraços, apoio… Todos nos dizem que vai correr bem. Que tu já és grande e o que aconteceu ao Gabriel foi muito mau, e não é o normal.
Mas tenho medo, sim, porque essa é a nossa experiência.
Mas também tenho a certeza que vai correr bem e que depois de tudo isto, as coisas que são problemas para tantos, serão mais triviais para nós. Que seremos ainda mais unidos. Também espero que, mesmo que vocês não se lembrem de nada disto, aprendam a dar ainda mais valor à fragilidade da vida e de como vale a pena estarmos aqui.

Vocês já ensinaram tanto à mãe sobre o que é a coragem, a perseverança, a paciência e a esperança, que a mãe acredita em vocês.
Que afinal, volta a não ser este Halloween que vos pinto um bigode, mas que, garanto-vos que em Dezembro ponho-vos 2 grandes gorros de elfos que vou tricotar, calçamos sapatos bicudos com sinos na ponta, e vamos os 4 extasiar-nos perante as luzes da nossa árvore de Natal.

Até lá meus amores, agora com um em cada hospital, continuamos aqui!
Vossos!

Dia Mundial do Coração

Escrito a 29 de Setembro de 2015

Hoje é Dia Mundial do Coração.
Palavra simbólica de tantos poemas que cantei. Hoje com um novo e duplo significado.
Daqui a uns anos, bebés, vocês ouvirão este dia nas notícias. Perceberão que mais pessoas têm doi-dois no coração e que não sabem nenhuma história de nuvens…
A história que a mãe vos conta.
“Era uma vez dois meninos lindos, muito, muito pequeninos e amados que um dia foram fazer uma viagem grande, na barriga da mãe, até à terra dos cangurus. Os meninos tinham 7 semanas e sem serem maiores do que uma ervilha, já tinham surpreendido e alegrado os pais por existirem e por serem dois. Era tempo de muito trabalho e crescimento, e até às 8 semanas os meninos tinham a tarefa de fazer o coração… Mas os meninos… curiosos e encantados, distraíram-se com as nuvens tão belas e tão perto, e esqueceram-se, um ainda mais que outro, de acabar o coração.
Tonta a mãe, que não vos explicou que haveriam de andar muitas vezes de avião fora da barriga, e que aquela não era altura de distrações.
Mas é com os tum-tums mal acabados que temos de viver agora todos os dias.
E lembrar que o coração é afinal muito mais que a palavra que a mãe canta. Mas que será sempre o símbolo do que há de mais importante na vida e abunda entre nós – o amor.”
Meus bebés…
A sorte que eu tenho em me terem escolhido.
Todos os dias espero ser a melhor mãe possível para vós. Não a mãe perfeita, inexistente e irreal. Mas a mãe cheia de lacunas… mas verdadeira.
É isso que vos prometo numa das nossas canções:
“Remember I will always be
Forever true and loving you eternally”
É tão dificil encarar que vos falho e inevitavelmente falharei pela vida fora…
Daniel, no outro dia, tinhas consulta marcada. Combináramos tudo para te ir buscar a casa à hora certa.
Mas nesse dia, no hospital, pela primeira vez após a operação, a enfermeira perguntou se queria pegar o teu irmão ao colo. Que responde uma mãe que há mais de 28 dias vê o filho numa maca sem quase lhe poder tocar?
E quis, claro que quis, mas olhando o relógio a contar os segundos. Metade deles de embevecimento a contemplar o mano, e a outra metade de preocupação por ti.
Contabilizei ao máximo os minutos.
Saí a correr, voei para ti e contigo, mas… mesmo assim chegámos 15 minutos atrasados à consulta. Hospital publico Daniel. Horas de espera é o normal. Mas naquele dia, o médico tinha-se ido embora.
Chorei tanto, meu amor, cheia de remorsos. Para dar colo ao teu irmão tinha-te falhado a ti.
Mas… e se nao tivesse dado colo e o mano nos deixasse no dia seguinte? Que remorsos teria? A vida do mano era tão volátil naquele momento…
De então para cá apercebi-me que nem sempre vou conseguir estar inteiramente com os dois. Houve já 2 dias que só vi o Gabriel por 1 ou 2 horas porque estava contigo nas urgências, como tem sido várias vezes, por causa da tua hérnia.
Entendi, que não me consigo dividir, estar em casa e no hospital ao mesmo tempo. Nem mesmo estar o mesmo tempo com cada um.
Faço o meu melhor. Dou-vos, a cada um, o melhor de mim.
E sabes Daniel, acredito que mesmo assim não fizeste má escolha em me ter como mãe…
Amo-te tanto!

E a ti, Gabriel.
Continuas na sala com o nome que assusta os pais – cuidados intensivos – mas vemos todos como estás diferente.
As tuas batalhas têm continuado. Nada para ti é fácil pois não?
Uma manhã, a mãe chegou ao hospital e os médicos tinham-nos feito a surpresa de te tirar do ventilador. Estavas a respirar sozinho sem a ajuda da máquina. Foi quase como redescobrir-te o rosto. Só tinhas a sondinha para comer (com o adesivo que te faz um bigode bege, muito antes de seres homem).
Depois de tirarem o dreno e os milhares de cateteres que tinhas dentro de ti (pelo menos assim parecia à mãe), esse tubo de ar, por muito que te ajudasse a viver, era a porta de infecção mais perigosa que tinhas em ti.
Por isso nao imaginas a felicidade meu amor.
Mas ao longo do dia, foste-te cansando, cansando… Até à exaustão.
Os médicos dizem que começaste por te portar bem… Oh meu amor. Em termos da tua saúde tu portas SEMPRE bem. Estiveste a morrer e estás vivo!! Há maior força do que a de viver? Foi por isso que quando no dia a seguir, depois de te ver entubado outra vez, a mãe antes de se afastar de ti para ir chorar um bocadinho, te disse:
“Tenho muito orgulho em ti”
E tenho, amor. Tanto orgulho em vocês. Tanto orgulho em ser vossa mãe.
Acrescentámos então mais dias à tua estadia.
Problemas no pulmão, problemas na traqueia, problemas no diafragma…
Tudo consequências pós-operatórias, tudo curável. Mas tão chato e a causar tanta ansiedade, amor…
Queria tanto ver-te bem, levar-te para casa.
Já perguntei se ias ter problemas no futuro com os órgãos que foram tão massacrados na tua longa cirurgia, mas em principio nada há a recear. Apenas o teu coraçãozinho, como já sabíamos, terá que voltar a ser operado. E sabes que mais? Está a recuperar bem para aguentar até lá. Os médicos e enfermeiras estão tão contentes com o teu progresso. És um herói.
Há 3 dias dei-te o teu primeiro banhinho. Que felicidade foi para mim, poder tirar-te da incubadora sem fios, sentar-te na caixinha de cartão cheia de água, onde parecias inquirir se aquele novo tratamento também doia e observar a tua desconfiança dar lugar a satisfação (e depois a choro quando te lavei a cabeça…). Nao viste os meus olhos ficarem também com água… da felicidade de te ver como um bebé sem problemas.
Ontem dei-te o primeiro biberão. Tens 1 mês e meio, estás agora a aprender a comer pela primeira vez. Foste um valente como sempre, sem te engasgares, sem papar tudo até ficares exausto. Como sempre, devagarinho, a saber dosear as tuas vitórias. E a mãe cheia de orgulho
Dizem-nos para, se tudo correr bem, contarmos contigo em casa para o Natal…
Mas sabes? Embora sinta e siga o lema da tua sala: “um dia de cada vez e cada dia é uma vitória”, não há mal em sonhar, pois não?
Por isso eu sonho que já estarás em casa pelo Halloween.
Vou pintar-te um bigode. Preto, não bege, como o do bebé da Família Adams…
Sabes amor, há dias em que não estou tanto contigo…
O teu geminho tem tido muitas dores no doi-doi dele. Sabemos que tu ja passaste por tanta dor meu pequenino, mas o Daniel tambem tem sofrido um bocado. A hernia dele tem saido muitas vezes por dia e ele chora convulsivamente até a conseguirmos recolocar… ou até irmos as urgencias quando nao conseguimos.
Só pode ser operado daqui a 3 meses…
Mas tem papado bem e está um gorducho.
Juro-te que se fosses só tu eu não sairia da sala de espera do hospital, salvo quando fazes óó para tambem ver o sol e lembrar que há vida para além da tua sala, e que tu farás parte dela.
(Mas acredita que é tão melhor não seres só tu, porque vai ser bem melhor brincares e amares o teu irmão a vida toda)
Este mês tenho de sair em trabalho. No nosso país ser artista não é profissão, tem deveres mas nao tem direitos, e a mãe tem de trabalhar.
Roubo-vos aos dois um bocadinho de tempo. E por mais que adore o que faço, dói tanto estar longe de vós neste momento…
De resto, estamos contigo o dia inteiro, metade o pai, metade a mãe, enquanto também estamos com o Daniel. Não é por sermos pais coragem. Não concebo não ser assim…
Estás seguro e bem tratado, é certo. Mas és nosso filho. É nossa a vontade, e a obrigação de tratar de ti.
Faz-me tanta confusão uma das bebés da tua sala. É raro ver-lhe os pais.
No outro dia a enfermeira dizia que ela estava cheia de cefaleias. Oh Gabriel, que pesar me deu, ver a menina, metade de ti (e tu já és pequenino) a esbracejar impotente cheia de dores de cabeça e sem um carinho… Deu-me uma vontade de abrir a incubadora e dar-lhe miminhos…
Os teus papás também estão tão longe de ser perfeitos. Às vezes até discutem por causa de um biberão. Não têm tido qualquer tempo um para o outro, mas felizmente sabem que qualquer fútil discussão não é mais que fruto de tanta ansiedade e cansaço extremo. As ultimas madrugadas temo-las passado a andar de carro para tras e para a frente na nossa terra, para aliviar a hernia do mano… Dormimos demasiado pouco. Quantas vezes, os olhos da mãe se querem fechar, a conduzir na noite a caminho de casa. Sabes o que faço nessa altura? Ias-te rir… Canto para vocês, o que quer que esteja na rádio, em altos berros, mas como a voz já está rouca de cansaço, nunca ninguém diria que a mãe é cantora…
Felizmente, bebé, os abraços que os teus pais dão um ao outro e que vos damos, são muito mais fortes que toda a adversidade que veio ao nosso encontro.
Porque muito mais do que a vida ser perfeita, do que sermos perfeitos, o que importa é sermos verdadeiros.
Ando a descobrir os meus defeitos como mãe.
Mas também sabes qual penso ser a minha qualidade? O amor.
Amo-te tanto!

Hoje, para mim o coração é tudo aquilo que já cantei, (a solidão, a entrega, a doçura, a paixão, a amargura…), acrescentando a fragilidade da vida… e este sentimento…
Este sentimento tão inexplicável, incomensurável e belo, que é amar-vos.

Daniel

 

Gabriel

 

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1 mês de vida

Escrito a 15 de Setembro de 2015 – 1 mês de vida

Era suposto ser Setembro o vosso mês. O mês do Outono, do cheiro da terra molhada, do som cristalino das folhas pelo chão…
Ainda não deviam ter nascido e hoje já fizeram 1 mês.
O mês mais difícil, estranho e encantado da minha vida que mudou todo o sentido da mesma…

Daniel – 10 dias numa caixinha, 21 em casa. 2850kg. Que bebé grande!
Não foram dias fáceis para ti. Os primeiros dias sem os pais, enquanto estes cuidavam do bebé que precisava mais e se tentavam remendar a si próprios antes de ir ao teu encontro.
1 mês a dar força a dois adultos extenuados. 1 mês a fazeres surgir gargalhadas por entre as suas lágrimas
Que seria de nós sem ti?
Como conseguiríamos a força para transmitir ao mano, se não fosse em ti que recarregássemos todas as noites o nosso coração.
Ás vezes sinto-me tanto a falhar contigo.
Ao fim de 15 dias de estares em casa, lembrei-me que não tínhamos uma fotografia juntos. Mãe e filho maravilhoso que és.
Eu que adoro tirar fotografias sem fazer jus à tua beleza de bebé. Aos teus biquinhos, aos olhos que entortas para adormecer, aos sorrisos à galã, meio de lado.
Mas quero que saibas que os conheço todos. E que pela primeira vez sei que não vou esquecer nada (sabes que os amigos chamam Dori à mãe, como aquele peixe do Nemo que se esquece de tudo). Mas não das tuas caras patuscas. Não dos teus sorrisos maravilhosos ou dos teus olhos curiosos, ou mesmo da tua desorganização completa quando esperas pelo biberão, esfaimado como sempre.
Desculpa se não tens os pais sempre contigo. Agora o pai, agora a mãe… pelo meio da sua vida nos hospitais.
Desculpa se ainda não te devolvemos o teu gémeo, para brincares como faziam na minha barriga.
Acredita que a mãe dava tudo para que pudéssemos estar os 4 juntinhos.
Prometo-te que estamos os três a lutar muito para te compensar o mais rápido possível.
Durante este mês foste um herói. A lutares para sobreviver, depois para crescer, depois a cuidares dos pais, depois a ficares doente e a assustares-nos com as tuas idas às urgências e a noticia de uma operação por fazer. “Uma hérnia, coisa simples de prematuros” – dizem os médicos… mas nós estamos tão cansados de hospitais e tão receosos por vocês, que não queríamos mais essa partida…
Mas cá estamos para te apoiar, hoje e sempre. Para sempre.
Imagino-te a chamar-me, de calções, com um arranhão no joelho depois de uma subida à nossa arvore.
Estarei aqui para te proteger. Hoje e sempre.
Com um amor tão grande meu bebé maravilhoso. Obrigada. Obrigada meu amor por existires e me fazeres tão feliz.

Gabriel – 10 dias numa caixinha, 21 dias nos cuidados intensivos, vários à beira da morte.
Meu amor…
Por onde começo?
Saiste da tua caixinha para o hospital das lágrimas, como lhe chama o teu pai.
(O teu primeiro passeio de carro foi numa ambulância. Vês? As histórias que tens para contar aos teus amigos?)
Zanguei-me com os médicos que só diziam que podias não sobreviver. Quase gritei com o teu cirurgião. “Eu já sei que o meu filho pode morrer, agora por favor, fale-me das possibilidades de viver”
Tive mais medo ainda quando vi a anestesista chorar ao ver-me chorar abraçada a ti… Ela achava que eu não te veria mais…
De noite até de madrugada, dei-te colinho até te tirarem de mim.
(E ainda hoje estou à espera de que me voltem a deixar pegar-te)
Saíste de ao pé de nós rodeado de médicos a falar alto de palavras que não percebemos. Sabes que eras minúsculo naquela sala enorme, deitado numa maca também muito grande para ti, ao lado dos adultos?
E no entanto saíste para o bloco de operações como um guerreiro. Acordado, sem chorar. O olhar, o teu olhar gigante e profundo, a perscrutar tudo.
O pai e eu ficámos agarrados um ao outro a chorar. Mas tu foste sozinho, acordado, cheio de coragem.
E sabes? A verdade é que eles tinham razão…
Os teus 2 quilinhos eram demasiado pouco. Depois de 6 horas de angústia à espera que saísses da cirurgia, apareceram os teus médicos.
A tua operação correu mal.
“Pode morrer”
“Preparem-se para o pior”
Oh céus. Nunca a dor foi tão profunda. O nosso coração tinha dois andamentos.
Rebelde, horrorizado e apressado a querer à força saltar do peito, para de seguida estar desfeito, do tamanho do teu, quase sem bater.
Gabriel nunca na vida me hei-de esquecer daquelas horas. O pai e a mãe de mãos crispadas um no outro, num movimento de embalo louco a evitar as lágrimas a todo o custo. A sorver as lágrimas para que não tivessem hipótese de cair por meio da respiração incoerente, sôfrega e inanimada.
Era como se deixar cair as lágrimas fosse desistir de ti.
Só tínhamos 3 palavras por meio dos nossos olhares enlouquecidos pelas lágrimas paradas à força:
“Ele vai conseguir”
E eram repetidas até à exaustão.
Deixaram-nos entrar para te ver. Talvez para nos despedirmos de ti?
A azáfama à tua volta era inimaginável.
Os médicos alteravam as tuas medicações, consoante as respostas do teu corpo, como se de correctores na bolsa se tratassem.
A tua vida era um jogo naquele momento.
Eles foram génios (e para nós anjos) a jogar…e tu…
Tu, meu pequeno lutador, deste-nos a todos uma lição de vida.
A parte que era preciso corrigir da tua aorta, tinha 1 milímetro, meu amor.
Tão pequenina, que enquanto a tentaram coser, estiveste 1 hora sem sangue na parte inferior do corpo.
Os teus órgãos pararam. Fígado, rins, intestinos… tudo.
Mas em poucas horas tentaste assegurar-te de que não te diziam: vai morrer.
Que emoção e angústia a cada orgão que começava a funcionar… a primeira vez que voltaste a mexer as pernas…
Os rins foi o que te custou mais.
Dias e dias em que estávamos todos pendentes de fazeres xixi. Dias de diálise a fazer-te mal.
Equipas médicas de outras áreas dirigiam-se aos cuidados intensivos para saber se o bebé milagre já tinha feito xixi.
Algo tão simples e era naquele momento uma separação fulcral entre a vida e a morte, entre a saúde e a lesão.
Com a diálise e os rins sem funcionar, o teu corpo foi inchando, inchando. Deixei de te reconhecer. Deixaste de ter rosto, pernas, corpo. Eras uma bola inanimada.
Uma imagem que nenhum pai deveria ter que ver…
Desistiram da diálise. Tiraram-te a algália. Nada fazia efeito. Estavas por tua conta. E foi assim que de repente as tuas fraldas começaram a aparecer cheias…
Ao teu ritmo, à tua maneira. Ninguém te podia pedir mais, pequeno herói.
Ao fim de 10 dias vi os teus olhos de novo. Esses olhos imperiosos que encerram todos os mistérios da tua força…
Mas a cada alegria que nos davas, sempre algo te empurrava para longe de novo.
Foram os orgãos a recuperar devagarinho, as infecções por bactérias residentes no hospital, e quando estavas quase, quase a tirar o ventilador… uma crise respiratória e liquido no pulmão.
Mais um duro golpe que nos disseram poder levar meses a sarar nos cuidados intensivos.
Aqui aprendemos que nada é uma vitória segura. Estamos no sítio que ao mesmo tempo quer dizer “perigo de vida”. O sítio onde regredir ou surgir nova complicação ainda é possível.
Ainda és um bebé com tubos e agulhas por todo o corpo, constantemente picado e picado. Buracos e cicatrizes de uma luta infinitamente maior que tu.
Até ao teu ano terão ainda de corrigir o resto do teu coraçãozinho…
Mas eu gosto de me sentir feliz cada vez que melhoras e hoje deste-nos uma prenda magnifica.
Os rins finalmente estabilizados, as infecções negativas, retirar o dreno do pulmão…
Como disse a Suzy, és um exemplo de valentia e serenidade.
Como disse a Lígia, a sorte é que eu nao mais esquecerei estes momentos, mas tu nunca os vais lembrar.
Quantas vezes, quando pioravas, chegava ao pé de ti de lágrimas nos olhos, para te encontrar à minha espera, sozinho no meio das máquinas que apitam incessantemente… a sorrir…
Que inspiração que tu és.
Hoje fazes um mês de vida.
Nunca viste a chuva, nunca sentiste o vento nem um raio de sol…
Perdeste até o sabor do leitinho da mãe que, no meio das tantas lágrimas que foram acabando por cair, foi secando, secando… deixando a mãe em dores no corpo e na alma…
Ouves música. É tudo o que te posso dar…
As enfermeiras quando me ouvem cantar para ti dizem-me para não perder este tesouro…
Meu amor, como tão facllmente eu dava a minha voz e tudo o mais que tenha para te ver saudável…
Vejo as amoras secar sem as ter colhido, vejo o caminho encher-se de folhas secas, vejo as roupas mudarem de estação.
Não te vejo no teu berço. Não te vejo no meu colo…
Ai meu amor, tamanho amor para tanta dor…
Mas tenho tido um sonho…
Imagino-te quase adulto (será um baile da formação? será um casamento?) e convidas-me para dançar a música do Charlie Chaplin que te canto sempre.
“Although a tear, maybe ever so near
that’s the time you must keep on trying
Smile, what’s the use of crying”

Hoje fazes um mês.
Quase que parece que hoje eu faço um mês.
Para trás já nada faz o mesmo sentido.
A vida começou porque tu existes.

Meus bebés, benção da mãe que todos os dias deste mês agradeceu a sorte de vos ter…que as nossas mãos se entrelacem como agora… até ao último mês da minha vida.

Daniel e Gabriel:

O Daniel na sua vida de novas aventuras:

O Gabriel na sua luta pela vida:

Um mês de amor imenso:

A vida por fios – a neonatologia

Escrito a 22 de Agosto de 2015

A vida por fios – como é viver na neonatologia.
O sítio onde “moram” os prematuros é um mundo aparte. De repente nada mais existe a não ser aquela sala iluminada onde o sol entra por entre frestas e onde temos de nos habituar a conviver com os apitos constantes e as luzes a piscar intermitentes e frenéticas sem entrarmos em pânico.
Ali os rituais são sagrados, não se toca num filho sem ter as mãos banhadas em alcool, o corpo rodeado por plástico.
As medidas de avaliação são outras. O sucesso de um bebé mede-se aos mililitros. “Já bebeu 5 ml de leite, já pode aumentar para 10”. E aos fios. “Já pode tirar uma sonda, está a ficar mais forte”. E todas as pequeninas coisas são uma conquista gigante.
Na neonatologia os bebés têm as mãos negras. E os braços e às vezes os pés. Das vezes que são picados para fazer análises, colocar cateteres com medicação… em exercícios infindáveis de encontrar, e não perder, as suas minúsculas veias.
Naquela sala não se coloca o despertador para dar um remédio. As máquinas apitam e deixam os pais em alarme sobre o que se estará a passar.
Mas quase que há um despertador interno em cada mãe para lembrar a tiragem de leite com a bomba. É numa sala à parte, que por vezes cumprem horários iguais e se encontram. Aí, trocam-se as histórias. Histórias de muitas mães, de todas as classes sociais e várias culturas, que já sofreram muito. “Quantas gramas?” “Que complicações?”
Algumas histórias de dor:
” Os gémeos que estiveram cá 7 meses e quando já estavam fortes, um foi operado ao pulmão e morreu”
O que me deixa a chorar aflita a pensar nos meus, embora saiba que a mãe que contou a história não fez por mal.
Algumas histórias de esperança. “A minha menina nasceu há 3 meses com 500g. Era metade de uma mão. Está com 1800g à espera de chegar aos 2kgs e aprender a mamar”
Histórias de muito cansaço, de dias e dias naquela sala em que o sol só entra pelas frestas das janelas e as horas são contadas em função dos tratamentos e da tiragem do leite.
Mas histórias de muito amor, em que as vitórias se celebram com sorrisos e lágrimas de alegria.
“Hoje pode levar um colinho”
Ter o nosso filho nos braços durante dez minutos, ou uma hora, cheios de fios que passam a balançar-nos à frente, é o melhor momento do mundo.
“Hoje já mudamos nós a fraldinha”
E pensamos como mudar uma fralda em casa é a coisa mais fácil do mundo.
Porque ali, mudam-se as fraldas por entre duas pequeninas janelas. E por entre as perninhas a mexer e os bebés a barafustar é preciso lidar com os fios, com os cateteres, os termómetros, as sondas, os autocolantes… e as fraldas grandes demais para os nossos pequeninos.
Na maternidade, os bebés recebem as visitas da família toda, dos amigos todos. Passam de mão em mão, colinho em colinho, em primeiras demonstraçoes de amor.
Na neonatologia os pais estão sozinhos. As visitas são escassas em breves minutos e feitas sem tocar.
E a família e os amigos aguardam ansiosos por notícias, por fotografias, dia após dia.
Na neonatologia há dias bons e dias maus.
Anteontem o Gabriel (quem vai ser operado) apanhou uma infecção, tinha dificuldade em respirar, comia pouco. O nosso dia foi de dor, de angústia. E valeu-nos o colo um do outro enquanto pais para suportar a situação. No dia seguinte os níveis melhoravam, já pôde ter um colinho, já houve um alívio enorme. O Daniel saiu da incubadora para um bercinho descapotável, como diz o pai, tirou todos os fios e está a melhorar imenso, e o dia foi de esperança e sorrisos.
Navegamos em emoções ao sabor das notícias e dos sorrisos ou choro dos nossos filhos.
Os nossos meninos, para prematuros nasceram com um bom peso e umas semanas muito aceitáveis. O Daniel nesta semana ja aprendeu a comportar-se como um recém-nascido e em principio terá alta segunda-feira, enquanto que o Gabriel será transferido para outro hospital. Aqui são uns heróis.
Mas para a operação o Gabriel é muito pequenino, mas tambem nao se pode estar à espera que cresça para o operar.
E esse risco turva os pensamentos de cor cinzenta e é preciso agarrarmo-nos com força ao amarelo do sol que passa por entre as frestas das janelas.
Todos os dias lhe contamos como a vida é bela e como ele tem de ser forte para conhecer a chuva, o Outono, os passarinhos e as luzes da árvore de Natal…
Acalma-me e comove-me a reacção que ele tem ao meu canto, que ao 2º verso já o faz parar de chorar.
Se há alturas em que questionei ao destino o dom e a vontade de cantar, este é o momento em que não posso estar mais grata por ele.

Agradecemos a todos os colegas, amigos e amigos do facebook que através de telefone e por este meio, têm gerado uma onda de pensamentos bons em redor de nós.
À família e aos amigos do coração, não seríamos capazes sem a vossa força.
Obrigada a todos.

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Assustadoras e benditas…

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Uma mão que se torna gigante para tão pequenino tamanho…

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A primeira foto de familia, encarecidamente pedida às enfermeiras. Tirada na madrugada da 1ª operação do Gabriel. Antes da separação (ainda maior) dos dois… de nós… O medo de que fosse a primeira e última fotografia…

O amor nasceu…

Benvindos meus pequenos príncipes.
Os meus bebés já nasceram. O amor nasceu… Dia 15 de Agosto com cerca de 2 quilinhos cada um. Dizem-nos que ja somos uns heróis por termos chegado às 35 semanas.
Parece ainda tão pouquinho no entanto…

Como prematuros, vejo-os através de vidros, rodeados de máquinas cheias de luzes e sons.
Longe, tão longe do abraço apertadinho e desejado…
Nestas condições a sensação de impotência é enorme.
Daí à tristeza, a distância é pequenina…

Mas porque felizmente estão a recuperar bem, já pude entretanto ter a emoção de lhes dar um pouquinho de colo.

Que sensação pegar o Daniel.
O meu bebé. Tão pequenino, tão frágil, cheio de tubos por todo o lado.
Eu sem experiência nenhuma, cheia de medo de fazer alguma coisa mal, mesmo em algo tão simples como dar um colinho.

Mas ele olhou-me e adormeceu tranquilo, fazendo às vezes, como o irmão, os pequenos gemidinhos tão absolutamente adoráveis.

Depois foi o Gabriel, talvez por ja ser o segundo colo, talvez por cair a tarde na neonatologia, tive mais segurança com o meu pequenino.

Acalmei-o a cantar a nossa música do Dumbo e os olhinhos dele a pesquisar-me parecia que diziam: “então és tu? Eu conheço isto”

Hoje já os enchi de historinhas enquanto me observavam toda o tempo todo.
Aliás a contar a nossa historinha de como somos fortes e todos os dias são uma benção para nós.

Hoje eu vou embora. Os meus bebés ficam…
O Gabriel ainda espera operação…
Este é apenas o início da nossa luta.

Não é fácil cantar-lhes sem a voz se embargar.
Mas quando as suas mãozinhas já agarram com força os meus dedos, tudo se compõe.
E o universo todo, são só eles.

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Na maternidade…

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A 1ª fotografia

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O 1º colo do Daniel e um mini biberão maior que ele…

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O primeiro colo do Gabriel

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Canguru do Daniel com o pai

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Os primeiros sonhos do Daniel

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Canguru do Gabriel com a mãe

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Os muitos tubos do Gabriel

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A primeira visita dos gémeos

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A felicidade no meio das máquinas…