Feliz Natal 2017

26551475_1588804161212713_98188639_n

Não me lembro porque razão sempre adorei o Natal, não sou religiosa, não tenho a loucura da compra das prendas (e em criança, nem havia dinheiro para prendas 😛 …).
Talvez comemore inconscientemente o solstício de Inverno, com as suas tradições milenares verdadeiramente natalícias. Talvez ajude o facto de fazer anos a dia 27 e em criança achar que todas as luzes da cidade eram a decoração da minha festa de anos 😀
Ou talvez veja o Natal como um reflexo da minha constante utopia 🙂

Das tréguas (mesmo que passageiras) entre países em guerra
das tentativas (mesmo que às vezes falhadas) das famílias disfuncionais,
da solidariedade (mesmo que forçada),
dos sorrisos (mesmo pelo meio do stress),
da magia (num mundo cada vez mais real… ou reality show…)

Também é a época em que cá por casa aproveitamos para ensinar uma ou duas mensagens que achamos fundamentais.
Não é preciso ter muito, para estar feliz.
O mais importante é a união.

Diversão

Mas isso não impede em nada, o embrenharmos-nos na magia.
Por isso, começamos a época por aproveitar os vários mercados e actividades de Natal que existem nos municípios (a maioria, gratuitos), embrenhando-nos no espírito Natalício com toda a nossa paixão.

Prendas

As prendas todos os anos são feitas por nós (licores, almofadas, loiça pintada, caixas de chá…). Isso faz com que, tendo mais trabalho, mas menos despesa, mesmo os adultos recebam uma prendinha. Ainda que pequena, perpetua a magia da época e convenhamos que todos nós gostamos de algo para desembrulhar.

Este ano foram frasquinhos reciclados, de marmelada caseira e biscoitos de alfarroba e laranja. Os embrulhos, também têm a marca dos  bebés.

Pela primeira vez e inspirados na educação que queremos dar aos nossos, este ano também não comprámos brinquedos para as crianças.
Os nossos meninos rabiscaram t-shirts brancas para os primos e amigos e queremos crer que ao invés de mais um dos mil brinquedos que as crianças recebem no Natal e que já nem sabem quem deu, vão usar estas t-shirts e sorrir ao lembrarem os primos pequeninos a fazer “desenhos” para eles.

Este ano, pedimos aos amigos para não comprarem brinquedos, é nesta idade, em que ainda não sabem como fazem os outros, que podem aprender a valorizar as pequenas coisas em vez dos grandes e muitos embrulhos.
A nossa prenda para os nossos filhos foi uma cozinha de brincar para os três (gêmeos e enteada). Uma prenda (melhorzinha) para os 3…

A nossa prenda um para o outro foram doações para causas sociais. Já chegámos à fase de não precisar de nada de material básico e necessário, e de nos sentirmos muito mais realizados, sabendo que a nossa contribuição deixa alguém mais feliz. Escolhemos associações ou causas pequenas em que as coisas pareçam funcionar realmente em prol de quem necessita, e esta é também uma forma de nos inteirarmos de como está o mundo, o que podemos mudar (por pouco que seja o nosso gesto) e de passarmos essa mensagem aos nossos filhos.
Este ano doámos para:
The MT Foundation – Doação de Chuteiras usadas para crianças desfavorecidas
(ou seja, como o marido adora futebol, dei-lhe umas chuteiras de criança acessíveis, para ele doar. Estranho? Talvez. Para nós faz sentido assim.)
–  Projecto Amélia– Ajuda crianças com cancro sem meios de transporte a conseguir chegar ao hospital para tratamentos de quimioterapia. Projecto de um Português na Birmânia.

Pai Natal

Por aqui, não há barrigudo a descer pela chaminé.
Perpetuam-se essas histórias lindas, lidas sob a árvore de Natal, enfeita-se a imaginação com bonecos de barbas brancas feitos por eles, vive-se muita magia, mas eles sabem que os vários Pais Natais que vêm, são pessoas mascaradas e sabem que cá em casa o Pai Natal e os duendes somos nós. Escolhemos assim, pois por bela que seja a mentira, aprendemos na nossa família que não há inverdades, nem meias verdades. Há a verdade e nós não queremos mentir-lhes.
Por isso fazemos mais ou menos isto:
“A história do Pai Natal é muito linda, não é? Eu nunca o vi, nem conheço ninguém que o tenha visto, mas gosto de acreditar que ele exista porque é um símbolo da bondade. E nós podemos imitar o Pai Natal fazendo as nossas prendinhas para distribuir por quem gostamos, como ele faz na Oficina dele”
Depois, à noite, calçamos sapatos de duendes e gorros de Pai Natal, munimo-nos de guizinhos e abrimos as varias prendas que nos foram dando em Dezembro e as que temos nossas para trocar.

No fim da brincadeira, sentamo-nos quentinhos no sofá a ver um filme de Natal até eles adormecerem ao colinho. Que maravilhoso…

Ceia

Ao longo de Dezembro vamos fazendo os docinhos, bolachas com feitios, trabalhos manuais com muitas tintas e brilhantes, etc…mas na véspera de Natal, o dia é mesmo dedicado à cozinha, com muitas músicas de Natal cantadas e dançadas, pelo meio. Broinhas, bolo rei, sonhos, e o sonho de os ver de mãozinhas na massa a descobrir cheiros, sabores e a magia de fazermos juntos receitas de família, pelas nossas próprias mãos.

Neste dia, não há telemóveis, nem mensagens apressadas de Natal. O dia é só para a família e para a magia da época. A ceia é, claro está, vegetariana (vegan), sem crueldade animal, num dia de Paz.

O dia de Natal

De manhã, criam-se mais recordações que se esperam inesquecíveis. Recebe-se mais família e…
Cai neve na Azenha!
A nossa casa que é perto de Lisboa e claro, não tem neve natural. Só porque é Natal e eu sou apaixonada por um Natal na neve e por dar muita fantasia aos meus amores.
I’m dreaming of a White Christmas…
oh dreams can so come true…!

Snow in Lisbon

E pronto, este é só um exemplo de como um Natal com família pequenina, sem bacalhau nem perú, nem rios de dinheiro gastos em prendas e até sem acreditar piamente no Pai Natal, pode ainda assim ser mágico.
Porque a magia, a magia é o amor!

GuardarGuardarGuardarGuardarGuardarGuardar

GuardarGuardar

Advertisements

Once upon a Dream

A 15 de Agosto de 2015 nasceram os nossos filhos.
E a nossa vida transformou-se num turbilhão de sentimentos.
O medo de perder um bebé, ou mesmo os dois, demasiado tempo de internamentos e sobressaltos, demasiadas lágrimas, gritos, abraços, loucura e ternura… demasiados corações à espera de salvação, os deles… e os nossos, a sofrer por eles.

Um ano depois, a 15 de Agosto de 2016, eu e o pai, decidimos celebrar um dia de conquistas, não só por eles, mas também realizando o nosso sonhado casamento …
de surpresa…


Os pouquíssimos convidados foram cerca de 30. Apenas mesmo a família amiga e os amigos família. E chegados para um aniversário, foram surpreendidos com uma notária, um violino e um vestido de noiva que fizeram juntar as peças.

O local da cerimónia não podia ser mais bonito do que foi. Uma clareira no nosso bosque sob o leito do rio, que é gigante de Inverno, mas ribeiro de Verão, para que nele pudéssemos casar.

Casámos sob uma velha, velha árvore cuja história, a avaliar pelos seus ramos, tem tanto de derrotas, com acabados galhos pendendo no chão, como de glória, com a sua altivez a tocar os raios de sol. Mas toda ela sobrevivente, una e bela. Como a nossa história.


Casámos às 4h da tarde, ainda salpintados de tinta das múltiplas bricolages feitas até de madrugada e até ao último minuto. Tudo feito por nós, como sempre. Casámos cansados de muitos meses sem dormir, de muitos medos.
Mas casámos enamorados, seguros, felizes.


Felizes com uma tripla celebração muito, muito desejadas. O 1º aniversário de cada um dos nossos meninos gémeos e o nosso desejado enlace a entrelaçar para sempre 4 corações. Muito frágeis. Muito fortes.




O jardim da nossa Azenha cumpriu a recepção dos amigos.
Reenfeitado à pressa, depois de 1 ano em esquecimento. Mas belo como sempre.


Não pode haver melhor recomeço destas crónicas, do que este dia tão único e tão acarinhado, que embeleza ainda mais a história da nossa Azenha… e as nossas vidas.




The Dream Wedding

The Dream 1st Birthday

Um dia de sonho e amor.

Fotografias: Luís Azevedo
Vestido de noiva: Estilista desconhecido (comprado em 2ª mão por 50 dólares 🙂 )
Decoração – Azenha Dream Parties (ou seja nós :))
Bolos: Lígia Fonseca (prima)
Banda de jazz – Músicos de Rua –  fantásticos 🙂
Cenários: Mãe Natureza, sempre bela

GuardarGuardar

GuardarGuardar

GuardarGuardar

GuardarGuardar

Os primeiros 12 meses

… já não é novidade que eu adoro a fantasia.
Que adoro fotografia e que tenho imaginação de sobra…
Acrescentem-lhe 2 bebés… e a criatividade não conhece limites!

Estas são as sessões mensais do primeiro ano dos meus pequeninos lindos.

O 1º mês foi difícil – um bebé em casa, outro ainda na incubadora…
Por isso, teve de se aplicar o pior photoshop style do mundo 🙂

H 1 mês 0

O 2º mês foi ainda mais difícil. Subitamente, tinha os dois internados, um em cada hospital. Mas não me deixei ir abaixo. Fotografei ambos à vez, retomei a tentativa falhada de photoshop e continuei a acreditar que em algum mês eu iria ter a sorte de ter os dois em casa.

H 2 meses 0

Ao 3º mês, já quase com 4 meses, o sonho realizou-se. O Outono já recebeu ambos os bebés em casa, para a sessão dos 3 meses. A felicidade foi tanta.

H 3 meses 0

O 4º mês já foi a junção de toda a magia. Natal… e uns filhos gémeos… Feliz, feliz, feliz…

H 4 meses 0

5º mês – Uma sessão de Inverno para o mês de Janeiro. Ainda cirurgias a decorrer, e muita preocupação. mas a normalidade fantasiosa destas fotos sempre a dar força para acreditar no mês seguinte.

Versão 2

6 meses e o amor sempre a crescer. Os meus cupidos em modo S. Valentim.

H 6 meses 0

7 meses – A Páscoa a acontecer e eles a crescer 🙂

H 7 meses 0

8 meses – Primavera por toda a azenha.

H 8 meses 0

9 meses – Festa da Música na cidade e o mês de Maio – mês em que os pais (músicos) se apaixonaram. E eles a colocarem-se em pé.

H 9 meses 0

10 meses – As marchas de Lisboa e os meus dois fanfarrões na marcha da Azenha.

H 10 meses 0

11 meses – o Verão a chegar e o tempo de descobrir a praia.

H 11 meses 0

12 meses – a junção dos brinquedos favoritos, dados pelas pessoas que os amam e que os ajudaram a descobrir muitas coisas.H 12 meses 0

Fazer as coisas que tinha planeado antes das doenças e dos internamentos era a minha forma de levar a vida em frente, de alguma forma normal. A minha maneira de não desistir.
E hoje… hoje fico muito feliz por ter conseguido isso e olhar para estas memórias maravilhosas, que espero também eles, venham a gostar (quando tiverem 40s… :P).

Inverno ao calor dos 5

Inverno 1º trimestre de 2016

O tempo foi passando na azenha e o Inverno trouxe novas paisagens para explorar:

Histórias para contar no quentinho e brincadeiras entre irmãos sob o olhar atento do Mickey.

Danças ao colinho e música no sofá:

E sonecas à lareira, aquecidos pelo Simba (e pelo Bambi, o próprio…):

Se realmente dormissem tão bem, como parece nestas fotos, (e tivéssemos visitado menos hospitais), este Inverno tinha sido bem maravilhoso.

A primeira sessão de pais e filhos… that I will cherish forever…

28 de Janeiro de 2015

Estas fotos maravilhosas foram tiradas na véspera de mais uma operação do Gabriel.
Havia tensão, medo e ansiedade, mas tudo se transformou em beleza na hora de ficar com recordações eternas plenas de ternura e brincadeira.

Estas pérolas foram tiradas pela talentosa actriz, cantora e fotógrafa Patricia Resende (http://bit.ly/2y9gzDx) que com muito orgulho nosso, é tia escolhida dos nossos meninos.
Só um olhar de amor, poderia alcançar estes momentos.

Se há fotos que marcam uma vida, estas são decerto algumas delas.

My 1st Christmas

 

Natal 2015

O primeiro Natal deles foi também o meu. O meu primeiro Natal como mãe.
Que sonho…
Eu, um grande amor, uma árvore de Natal, e 2 filhos gémeos… Que sonho.

Tudo começou com 2 gorros tricotados e uma árvore de Natal para 3.

IMG_9990IMG_9942

E continuou com uma esperada (e maravilhosa…) sessão de fotografias natalícias:

IMG_2301

IMG_2343IMG_2342Uma bela mesa:

IMG_2415IMG_2416

A receber uma familia linda 🙂

E a nossa pequena grande família, a mais luminosa de todas:

IMG_9650IMG_9651IMG_9647IMG_9648

No dia 25, acordou-se assim:

IMG_9941IMG_9940

Com a mais bela prenda de todos os tempos…
Que sonho…

…ambos em casa!

Escrito em Novembro de 2015

Finalmente, ao fim de mais de 2 meses e meio, os meus gémeos estão ambos em casa.
As primeiras batalhas estão vencidas. As primeiras duas cirurgias aos corações dos meus pequenos grandes heróis. Terminou a primeira fase de hospitais e enfrentaremos as próximas com a mesma esperança e amor.
Até lá, aproveitaremos todos os Halloweens, todos os Natais e os chamados dias banais para conter as suas lágrimas e usufruir dos seus sorrisos.
Vamos partilhando.
O tempo é de cansaço, muito. Mas a felicidade de os ver juntos, de os ter junto a nós… supera qualquer outro sentimento.
Tantos obrigadas da família pelas palavras de força recebidas de vós ao longo de toda esta luta.

A primeira foto de irmãos fora da barriga

A primeira foto de irmãos fora da barriga

IMG_9331

A minha primeira foto com os dois. Tão feinha como estética e tão, mas tão mágica.

IMG_1494IMG_1495IMG_1506

IMG_1508IMG_9329IMG_1507

“Mais um tum-tum na oficina…”

Escrito a 25 de Outubro de 2015

Olá Gabriel
Meu reizinho mimado.
“Só quer conversa, cusquice e colinho” é o que ouço todos os dias 🙂
Deves vir a dar um técnico de informática extraordinário, tal é o tempo que passas a fazer registos nos computadores do hospital ao colo das enfermeiras, entretido, curioso e calmo.
Meu preguiçoso. Então não aprendeste nada com as histórias do mano comilão?
Esses biberões, não são para papar todos?
Bebé tonto da mãe, que não sabe que tem o irmão à espera para brincar, o Jack, o Mickey, o Simba…
E os pais…
Esperamo-te amor… Com a maior paciência do mundo, de acordo com o teu tempo, mas queremos tanto levar-te finalmente para casa… E já está tão perto amor. Meu herói valente. Faz só mais um esforço, que é tão pequenino comparado com tudo o que já fizeste.
Olho as fotografias ao longo destes 2 meses.
Muita gente não as consegue ver. Cheio de tubos, inchado, davas dó, provocas lágrimas.
Mas para nós, pais de meninos internados, não. Todos tiramos fotos, embevecidos. O mais pequeno esgar de sorriso por entre as máscaras é motivo de orgulho.
E é uma prova da vossa valentia!
A mãe agora tirou ao mano também, porque sei bem, que em crescendo um pouco, vão querer comparar tubos e cicatrizes quando souberem as histórias da vossa coragem.
Sorrio quando penso nisso.
O nosso sofrimento, no futuro, vai ser apenas uma história que vos contarei e que vos deixará orgulhosos e confiantes. Como a mãe deseja.
É tão bom amar-te pequeno grande Gabriel.

Olá meu pequenino Daniel.

Achei sempre que, apesar de maior, eras mais frágil que o mano.
Tive tanto medo por isso…
Afinal amor meu, és um homem grande!
No dia da tua operação preparámos o dia a rigor. Acordámos cedinho, cedinho, e da janela do hospital assistimos ambos ao nascer do sol. Nada mais belo na terra que vê-lo nos teus olhos…
A tua tez a ficar laranja do reflexo do astro rei. Os teus olhinhos a semicerrarem à medida que a sua luz se elevava no céu e a mãe a explicar-te tudo o que estava a acontecer.

E logo a seguir, tivemos a sorte de nos proporcionarem um salão de baile no nosso quarto.
Levaram a camita do lado e nós aproveitámos logo dançando valsas até adormeceres.
Depois esperámos, esperámos, enquanto a mãe desesperava. Tomara o tempo passado…
Foste operado ao entardecer.
Dei-te dos meus braços para os da enfermeira que te levaria para o bloco. Que dor tão grande. A angústia lancinante de não saber se te voltaria a ver…
Mas tenho dois filhos tão valentes. Também tu foste acordado, sem chorar.
A chorar ficou a mãe. O corpo a continuar o embalo que te estava a dar antes de te tirarem de mim.
E parti. Cheguei ao outro hospital e vali-me do teu irmão. Não te preocupes. É obrigação dele, porque te fiz o mesmo quando ele foi operado.
Absorvi todos os olhares que me deu, todos os risos e até o ralhar com ele para papar, me ajudou a fazer passar o tempo.
Sabes que mais? Nem só eu e a tia Lígia estávamos nervosas naquela sala.
Mesmo só te tendo conhecido 10 dias quando nasceste, dada a proximidade que têm com o teu mano, as enfermeiras pareciam ainda mais ansiosas que nós.
Já tinham ligado várias vezes para o outro hospital. As médicas de serviço, a apoiarem muito, a darem abraços mesmo sem serem pedidos, a fazer telefonemas…
Soubemos que estavas bem ainda nem tinhas saído do bloco.
O mano recebeu um abraço tão forte de alívio, que não deve ter gostado nada…
A notícia a espalhar-se dos intermédios, aos intensivos. Toda a gente feliz. Que alegria amor, tanto apoio.
De então para cá em 2 dias tiraste o ventilador, o dreno, fizeste xixi, começaste a papar…
Oh meu amor, que diferença. Que alívio. Em 2 dias saiste dos cuidados intensivos. O mano foi em mês e meio, o que mais nos prova que o tempo dele foi tão dificil…
O cirurgião a descansar-nos: “correu muito bem”.
Que orgulho ver-te pequenino ainda sem 4 quilinhos, na cama gigante, muito acordado e sereno, como só tu, a observar tudo…
Em pouco tempo voltarás para casa.
A sorte que eu tenho de não me teres deixado, de me dares o privilégio de te continuar a amar…
Obrigada amor grande da minha vida.

Em pouco tempo irão finalmente os dois para casa…
Vai na volta (a esperança da mãe não morre), ainda vos pinto os bigodes, na noite das bruxas…

Daniel

Gabriel

2 meses de vida – a montanha russa

Escrito a 16 de Outubro de 2015

15 de Outubro
Hoje os meus meninos gémeos fazem 2 meses. Mas o sorriso que já voltáramos a ter desvaneceu-se, as lágrimas voltaram a cair, o universo deu-nos aos 4 uma nova batalha para travar…

Meu querido Gabriel

2 meses de uma vida que nos disseram ir terminar quando tinhas 10 dias.
Travaste a maior luta de todas as lutas que a natureza pode ter.
Encontraste a morte e disseste-lhe para esperar.
Sabias que tinhas muito amor para te receber. Sabias pelas descriçoes da mãe que a vida era dificil muitas vezes, mas que tambem valia tanto a pena. Conhecer as marés, as noites de estrelas cadentes, o sorriso de quem amamos e nos ama – o mais importante da vida.
Hoje, és um rezingão mimadinho (e a mãe que tinha tantas regras sabidas para aplicar à tua educação…) Ainda não conheces a tua casa, mas sei que és feliz. Heróizinho grande da neonatologia, quando os pais não estão, a vida é ao colo das enfermeiras que te adoram e te levam com elas para o computador.
Já respiras por ti, já não há tubos, já so falta conseguires beber 8 biberãos inteiros por dia sem a ajuda da sonda.
Não é fácil. Nunca o tinhas feito, e como nasceste prematuro, esse reflexo de mamar, não nasceu contigo.
Mas tu és um sabichão e vais tão bem lançado (não fosse esse soninho danado) que ao fim de 2 angustiantes meses, a tua tão esperada chegada a casa está para muito breve.
O orgulho que é ver-te sorrir, poder ralhar contigo quando resmungas… É raro chorares, mas resmungar meu amor… pareces um velhote rabugento! Ainda nem chegaste à primária e já levo queixas para casa da fisioterapeuta 🙂
Ao mesmo tempo és o rei do sítio, muito do sucesso devido aos teus olhos grandes que agora ávidos de tudo o que perdeste sedado, prescrutam a sala em constante descoberta.
Vais ver meu amor, como a vida é mesmo uma constante descoberta. Que tal como na tua sala, tem dores, muitas dores, lágrimas, ansiedade, mas também vitórias, conquistas, beleza, carinho… amor.
Ainda te falta mais uma operação até ao teu aninho. A mãe tem medo (a mãe anda uma medricas) mas ao mesmo tempo ensinaste-a a ter uma força desconhecida. Sobretudo uma capacidade de aceitação e de não preocupação antecipada. E esperança. Essa verde palavra que nos acompanha agora constantemente, porque é tudo o que temos.
Espero muito que tenhas dito à morte que só pode voltar quando tu fores bem velhinho depois de uma vida de paz e amor.
Eu, meu amor, serei tua até morrer.

Meu querido Daniel

2 meses juntos.
Sereno, distraído mas observador.
O meu amor por ti a crescer a cada olhar teu.
Ainda que estejas em casa e usufruas de tanto mais que o teu irmãozinho, não tem sido fácil.
Tens dois papás cansados de 2 meses em maratonas entre a casa e o hospital. Para além de teres as clássicas cólicas de bebé, tens duas hérnias que te dão imensas dores muitas vezes por dia, e que te fazem tambem ja teres visitado muitas urgências, vários hospitais.
Apesar disso sorris e estás um gorducho tão lindo. A mãe jura a pés juntos que hoje ao colinho do pai deste os teus primeiros sorrisos sociais para a mãe. Já não foram aqueles descarados que vocês fazem quando chegam à terra dos sonhos. Foram tímidos, de olhos nos olhos comigo, lindos demais. E pronto lá vieram as lágrimas aos olhos da mãe, tal como quando anteontem o mano bebeu o biberão todo 2 vezes seguidas.
Que vergonha a mãe andar tão chorona.
Mas esta felicidade tão grande, que maior não há, de a encontrarmos nas pequenas coisas, foi derrubada logo a seguir.
Que vontade que dá à mãe de não vos voltar a levar nunca mais a consultas… Não que tenhamos qualquer queixa das equipas que vos têm tratado, todos fabulosos.
Mas porque aos teus papás, têm a mania de dar más notícias.
Lembras-te do teu pequenino doi-doi no coração?
“Um sopro apenas para ser vigiado”?
Pois hoje numa dessas vigias… aqui estás…
Internado no mesmo hospital das lágrimas em que o teu mano esteve tempo demais, mal demais… a aguardar também tu, uma operaçao ao coração.
O teu doi-doi piorou. Igual ao do teu gémeo, um pouco menos grave e com a vantagem de teres muito mais peso.
Oh meu pequeno enorme amor…
Tu já eras herói para os pais…
Quando nós te dissemos que tinhas de respeitar o mano por (apesar de estar mais pequenino) ser 3 minutos mais velho, não queríamos dizer que o copiasses.
Então agora ao completares o teu coraçãozinho resolveste estreitá-lo como o do mano?
Mas que raio, se vocês até nem são assim tão iguais, porquê terem doi-dois iguais? E logo estes? Logo no coração?
Oh meu amor… estou zangada.
Não é convosco! Nem com ninguém!
Não penso nada aquelas frases “porquê a mim?” “porquê aos meus filhos?”. Nunca pensei.
Porque não a mim? Porque não a vocês? Não somos mais nem menos que os outros pais a quem acontecem tormentos iguais ou piores que estes.
Também não acredito, porque nunca acredito nisso, que seja castigo, penitência, maldição ou “mau-olhado”…
É um designio. E tenho de o aceitar.
Estou zangada simplesmente. Hoje mais do que triste, estou zangada.
As equipas clínicas de ambos os hospitais, que já nos conhecem tão bem, ficaram realmente tristes. estávamos tão pertinho de estarmos todos juntos…Recebemos vários abraços, apoio… Todos nos dizem que vai correr bem. Que tu já és grande e o que aconteceu ao Gabriel foi muito mau, e não é o normal.
Mas tenho medo, sim, porque essa é a nossa experiência.
Mas também tenho a certeza que vai correr bem e que depois de tudo isto, as coisas que são problemas para tantos, serão mais triviais para nós. Que seremos ainda mais unidos. Também espero que, mesmo que vocês não se lembrem de nada disto, aprendam a dar ainda mais valor à fragilidade da vida e de como vale a pena estarmos aqui.

Vocês já ensinaram tanto à mãe sobre o que é a coragem, a perseverança, a paciência e a esperança, que a mãe acredita em vocês.
Que afinal, volta a não ser este Halloween que vos pinto um bigode, mas que, garanto-vos que em Dezembro ponho-vos 2 grandes gorros de elfos que vou tricotar, calçamos sapatos bicudos com sinos na ponta, e vamos os 4 extasiar-nos perante as luzes da nossa árvore de Natal.

Até lá meus amores, agora com um em cada hospital, continuamos aqui!
Vossos!