“Mais um tum-tum na oficina…”

Escrito a 25 de Outubro de 2015

Olá Gabriel
Meu reizinho mimado.
“Só quer conversa, cusquice e colinho” é o que ouço todos os dias 🙂
Deves vir a dar um técnico de informática extraordinário, tal é o tempo que passas a fazer registos nos computadores do hospital ao colo das enfermeiras, entretido, curioso e calmo.
Meu preguiçoso. Então não aprendeste nada com as histórias do mano comilão?
Esses biberões, não são para papar todos?
Bebé tonto da mãe, que não sabe que tem o irmão à espera para brincar, o Jack, o Mickey, o Simba…
E os pais…
Esperamo-te amor… Com a maior paciência do mundo, de acordo com o teu tempo, mas queremos tanto levar-te finalmente para casa… E já está tão perto amor. Meu herói valente. Faz só mais um esforço, que é tão pequenino comparado com tudo o que já fizeste.
Olho as fotografias ao longo destes 2 meses.
Muita gente não as consegue ver. Cheio de tubos, inchado, davas dó, provocas lágrimas.
Mas para nós, pais de meninos internados, não. Todos tiramos fotos, embevecidos. O mais pequeno esgar de sorriso por entre as máscaras é motivo de orgulho.
E é uma prova da vossa valentia!
A mãe agora tirou ao mano também, porque sei bem, que em crescendo um pouco, vão querer comparar tubos e cicatrizes quando souberem as histórias da vossa coragem.
Sorrio quando penso nisso.
O nosso sofrimento, no futuro, vai ser apenas uma história que vos contarei e que vos deixará orgulhosos e confiantes. Como a mãe deseja.
É tão bom amar-te pequeno grande Gabriel.

Olá meu pequenino Daniel.

Achei sempre que, apesar de maior, eras mais frágil que o mano.
Tive tanto medo por isso…
Afinal amor meu, és um homem grande!
No dia da tua operação preparámos o dia a rigor. Acordámos cedinho, cedinho, e da janela do hospital assistimos ambos ao nascer do sol. Nada mais belo na terra que vê-lo nos teus olhos…
A tua tez a ficar laranja do reflexo do astro rei. Os teus olhinhos a semicerrarem à medida que a sua luz se elevava no céu e a mãe a explicar-te tudo o que estava a acontecer.

E logo a seguir, tivemos a sorte de nos proporcionarem um salão de baile no nosso quarto.
Levaram a camita do lado e nós aproveitámos logo dançando valsas até adormeceres.
Depois esperámos, esperámos, enquanto a mãe desesperava. Tomara o tempo passado…
Foste operado ao entardecer.
Dei-te dos meus braços para os da enfermeira que te levaria para o bloco. Que dor tão grande. A angústia lancinante de não saber se te voltaria a ver…
Mas tenho dois filhos tão valentes. Também tu foste acordado, sem chorar.
A chorar ficou a mãe. O corpo a continuar o embalo que te estava a dar antes de te tirarem de mim.
E parti. Cheguei ao outro hospital e vali-me do teu irmão. Não te preocupes. É obrigação dele, porque te fiz o mesmo quando ele foi operado.
Absorvi todos os olhares que me deu, todos os risos e até o ralhar com ele para papar, me ajudou a fazer passar o tempo.
Sabes que mais? Nem só eu e a tia Lígia estávamos nervosas naquela sala.
Mesmo só te tendo conhecido 10 dias quando nasceste, dada a proximidade que têm com o teu mano, as enfermeiras pareciam ainda mais ansiosas que nós.
Já tinham ligado várias vezes para o outro hospital. As médicas de serviço, a apoiarem muito, a darem abraços mesmo sem serem pedidos, a fazer telefonemas…
Soubemos que estavas bem ainda nem tinhas saído do bloco.
O mano recebeu um abraço tão forte de alívio, que não deve ter gostado nada…
A notícia a espalhar-se dos intermédios, aos intensivos. Toda a gente feliz. Que alegria amor, tanto apoio.
De então para cá em 2 dias tiraste o ventilador, o dreno, fizeste xixi, começaste a papar…
Oh meu amor, que diferença. Que alívio. Em 2 dias saiste dos cuidados intensivos. O mano foi em mês e meio, o que mais nos prova que o tempo dele foi tão dificil…
O cirurgião a descansar-nos: “correu muito bem”.
Que orgulho ver-te pequenino ainda sem 4 quilinhos, na cama gigante, muito acordado e sereno, como só tu, a observar tudo…
Em pouco tempo voltarás para casa.
A sorte que eu tenho de não me teres deixado, de me dares o privilégio de te continuar a amar…
Obrigada amor grande da minha vida.

Em pouco tempo irão finalmente os dois para casa…
Vai na volta (a esperança da mãe não morre), ainda vos pinto os bigodes, na noite das bruxas…

Daniel

Gabriel

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