Dia Mundial do Coração

Escrito a 29 de Setembro de 2015

Hoje é Dia Mundial do Coração.
Palavra simbólica de tantos poemas que cantei. Hoje com um novo e duplo significado.
Daqui a uns anos, bebés, vocês ouvirão este dia nas notícias. Perceberão que mais pessoas têm doi-dois no coração e que não sabem nenhuma história de nuvens…
A história que a mãe vos conta.
“Era uma vez dois meninos lindos, muito, muito pequeninos e amados que um dia foram fazer uma viagem grande, na barriga da mãe, até à terra dos cangurus. Os meninos tinham 7 semanas e sem serem maiores do que uma ervilha, já tinham surpreendido e alegrado os pais por existirem e por serem dois. Era tempo de muito trabalho e crescimento, e até às 8 semanas os meninos tinham a tarefa de fazer o coração… Mas os meninos… curiosos e encantados, distraíram-se com as nuvens tão belas e tão perto, e esqueceram-se, um ainda mais que outro, de acabar o coração.
Tonta a mãe, que não vos explicou que haveriam de andar muitas vezes de avião fora da barriga, e que aquela não era altura de distrações.
Mas é com os tum-tums mal acabados que temos de viver agora todos os dias.
E lembrar que o coração é afinal muito mais que a palavra que a mãe canta. Mas que será sempre o símbolo do que há de mais importante na vida e abunda entre nós – o amor.”
Meus bebés…
A sorte que eu tenho em me terem escolhido.
Todos os dias espero ser a melhor mãe possível para vós. Não a mãe perfeita, inexistente e irreal. Mas a mãe cheia de lacunas… mas verdadeira.
É isso que vos prometo numa das nossas canções:
“Remember I will always be
Forever true and loving you eternally”
É tão dificil encarar que vos falho e inevitavelmente falharei pela vida fora…
Daniel, no outro dia, tinhas consulta marcada. Combináramos tudo para te ir buscar a casa à hora certa.
Mas nesse dia, no hospital, pela primeira vez após a operação, a enfermeira perguntou se queria pegar o teu irmão ao colo. Que responde uma mãe que há mais de 28 dias vê o filho numa maca sem quase lhe poder tocar?
E quis, claro que quis, mas olhando o relógio a contar os segundos. Metade deles de embevecimento a contemplar o mano, e a outra metade de preocupação por ti.
Contabilizei ao máximo os minutos.
Saí a correr, voei para ti e contigo, mas… mesmo assim chegámos 15 minutos atrasados à consulta. Hospital publico Daniel. Horas de espera é o normal. Mas naquele dia, o médico tinha-se ido embora.
Chorei tanto, meu amor, cheia de remorsos. Para dar colo ao teu irmão tinha-te falhado a ti.
Mas… e se nao tivesse dado colo e o mano nos deixasse no dia seguinte? Que remorsos teria? A vida do mano era tão volátil naquele momento…
De então para cá apercebi-me que nem sempre vou conseguir estar inteiramente com os dois. Houve já 2 dias que só vi o Gabriel por 1 ou 2 horas porque estava contigo nas urgências, como tem sido várias vezes, por causa da tua hérnia.
Entendi, que não me consigo dividir, estar em casa e no hospital ao mesmo tempo. Nem mesmo estar o mesmo tempo com cada um.
Faço o meu melhor. Dou-vos, a cada um, o melhor de mim.
E sabes Daniel, acredito que mesmo assim não fizeste má escolha em me ter como mãe…
Amo-te tanto!

E a ti, Gabriel.
Continuas na sala com o nome que assusta os pais – cuidados intensivos – mas vemos todos como estás diferente.
As tuas batalhas têm continuado. Nada para ti é fácil pois não?
Uma manhã, a mãe chegou ao hospital e os médicos tinham-nos feito a surpresa de te tirar do ventilador. Estavas a respirar sozinho sem a ajuda da máquina. Foi quase como redescobrir-te o rosto. Só tinhas a sondinha para comer (com o adesivo que te faz um bigode bege, muito antes de seres homem).
Depois de tirarem o dreno e os milhares de cateteres que tinhas dentro de ti (pelo menos assim parecia à mãe), esse tubo de ar, por muito que te ajudasse a viver, era a porta de infecção mais perigosa que tinhas em ti.
Por isso nao imaginas a felicidade meu amor.
Mas ao longo do dia, foste-te cansando, cansando… Até à exaustão.
Os médicos dizem que começaste por te portar bem… Oh meu amor. Em termos da tua saúde tu portas SEMPRE bem. Estiveste a morrer e estás vivo!! Há maior força do que a de viver? Foi por isso que quando no dia a seguir, depois de te ver entubado outra vez, a mãe antes de se afastar de ti para ir chorar um bocadinho, te disse:
“Tenho muito orgulho em ti”
E tenho, amor. Tanto orgulho em vocês. Tanto orgulho em ser vossa mãe.
Acrescentámos então mais dias à tua estadia.
Problemas no pulmão, problemas na traqueia, problemas no diafragma…
Tudo consequências pós-operatórias, tudo curável. Mas tão chato e a causar tanta ansiedade, amor…
Queria tanto ver-te bem, levar-te para casa.
Já perguntei se ias ter problemas no futuro com os órgãos que foram tão massacrados na tua longa cirurgia, mas em principio nada há a recear. Apenas o teu coraçãozinho, como já sabíamos, terá que voltar a ser operado. E sabes que mais? Está a recuperar bem para aguentar até lá. Os médicos e enfermeiras estão tão contentes com o teu progresso. És um herói.
Há 3 dias dei-te o teu primeiro banhinho. Que felicidade foi para mim, poder tirar-te da incubadora sem fios, sentar-te na caixinha de cartão cheia de água, onde parecias inquirir se aquele novo tratamento também doia e observar a tua desconfiança dar lugar a satisfação (e depois a choro quando te lavei a cabeça…). Nao viste os meus olhos ficarem também com água… da felicidade de te ver como um bebé sem problemas.
Ontem dei-te o primeiro biberão. Tens 1 mês e meio, estás agora a aprender a comer pela primeira vez. Foste um valente como sempre, sem te engasgares, sem papar tudo até ficares exausto. Como sempre, devagarinho, a saber dosear as tuas vitórias. E a mãe cheia de orgulho
Dizem-nos para, se tudo correr bem, contarmos contigo em casa para o Natal…
Mas sabes? Embora sinta e siga o lema da tua sala: “um dia de cada vez e cada dia é uma vitória”, não há mal em sonhar, pois não?
Por isso eu sonho que já estarás em casa pelo Halloween.
Vou pintar-te um bigode. Preto, não bege, como o do bebé da Família Adams…
Sabes amor, há dias em que não estou tanto contigo…
O teu geminho tem tido muitas dores no doi-doi dele. Sabemos que tu ja passaste por tanta dor meu pequenino, mas o Daniel tambem tem sofrido um bocado. A hernia dele tem saido muitas vezes por dia e ele chora convulsivamente até a conseguirmos recolocar… ou até irmos as urgencias quando nao conseguimos.
Só pode ser operado daqui a 3 meses…
Mas tem papado bem e está um gorducho.
Juro-te que se fosses só tu eu não sairia da sala de espera do hospital, salvo quando fazes óó para tambem ver o sol e lembrar que há vida para além da tua sala, e que tu farás parte dela.
(Mas acredita que é tão melhor não seres só tu, porque vai ser bem melhor brincares e amares o teu irmão a vida toda)
Este mês tenho de sair em trabalho. No nosso país ser artista não é profissão, tem deveres mas nao tem direitos, e a mãe tem de trabalhar.
Roubo-vos aos dois um bocadinho de tempo. E por mais que adore o que faço, dói tanto estar longe de vós neste momento…
De resto, estamos contigo o dia inteiro, metade o pai, metade a mãe, enquanto também estamos com o Daniel. Não é por sermos pais coragem. Não concebo não ser assim…
Estás seguro e bem tratado, é certo. Mas és nosso filho. É nossa a vontade, e a obrigação de tratar de ti.
Faz-me tanta confusão uma das bebés da tua sala. É raro ver-lhe os pais.
No outro dia a enfermeira dizia que ela estava cheia de cefaleias. Oh Gabriel, que pesar me deu, ver a menina, metade de ti (e tu já és pequenino) a esbracejar impotente cheia de dores de cabeça e sem um carinho… Deu-me uma vontade de abrir a incubadora e dar-lhe miminhos…
Os teus papás também estão tão longe de ser perfeitos. Às vezes até discutem por causa de um biberão. Não têm tido qualquer tempo um para o outro, mas felizmente sabem que qualquer fútil discussão não é mais que fruto de tanta ansiedade e cansaço extremo. As ultimas madrugadas temo-las passado a andar de carro para tras e para a frente na nossa terra, para aliviar a hernia do mano… Dormimos demasiado pouco. Quantas vezes, os olhos da mãe se querem fechar, a conduzir na noite a caminho de casa. Sabes o que faço nessa altura? Ias-te rir… Canto para vocês, o que quer que esteja na rádio, em altos berros, mas como a voz já está rouca de cansaço, nunca ninguém diria que a mãe é cantora…
Felizmente, bebé, os abraços que os teus pais dão um ao outro e que vos damos, são muito mais fortes que toda a adversidade que veio ao nosso encontro.
Porque muito mais do que a vida ser perfeita, do que sermos perfeitos, o que importa é sermos verdadeiros.
Ando a descobrir os meus defeitos como mãe.
Mas também sabes qual penso ser a minha qualidade? O amor.
Amo-te tanto!

Hoje, para mim o coração é tudo aquilo que já cantei, (a solidão, a entrega, a doçura, a paixão, a amargura…), acrescentando a fragilidade da vida… e este sentimento…
Este sentimento tão inexplicável, incomensurável e belo, que é amar-vos.

Daniel

 

Gabriel

 

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