1 mês de vida

Escrito a 15 de Setembro de 2015 – 1 mês de vida

Era suposto ser Setembro o vosso mês. O mês do Outono, do cheiro da terra molhada, do som cristalino das folhas pelo chão…
Ainda não deviam ter nascido e hoje já fizeram 1 mês.
O mês mais difícil, estranho e encantado da minha vida que mudou todo o sentido da mesma…

Daniel – 10 dias numa caixinha, 21 em casa. 2850kg. Que bebé grande!
Não foram dias fáceis para ti. Os primeiros dias sem os pais, enquanto estes cuidavam do bebé que precisava mais e se tentavam remendar a si próprios antes de ir ao teu encontro.
1 mês a dar força a dois adultos extenuados. 1 mês a fazeres surgir gargalhadas por entre as suas lágrimas
Que seria de nós sem ti?
Como conseguiríamos a força para transmitir ao mano, se não fosse em ti que recarregássemos todas as noites o nosso coração.
Ás vezes sinto-me tanto a falhar contigo.
Ao fim de 15 dias de estares em casa, lembrei-me que não tínhamos uma fotografia juntos. Mãe e filho maravilhoso que és.
Eu que adoro tirar fotografias sem fazer jus à tua beleza de bebé. Aos teus biquinhos, aos olhos que entortas para adormecer, aos sorrisos à galã, meio de lado.
Mas quero que saibas que os conheço todos. E que pela primeira vez sei que não vou esquecer nada (sabes que os amigos chamam Dori à mãe, como aquele peixe do Nemo que se esquece de tudo). Mas não das tuas caras patuscas. Não dos teus sorrisos maravilhosos ou dos teus olhos curiosos, ou mesmo da tua desorganização completa quando esperas pelo biberão, esfaimado como sempre.
Desculpa se não tens os pais sempre contigo. Agora o pai, agora a mãe… pelo meio da sua vida nos hospitais.
Desculpa se ainda não te devolvemos o teu gémeo, para brincares como faziam na minha barriga.
Acredita que a mãe dava tudo para que pudéssemos estar os 4 juntinhos.
Prometo-te que estamos os três a lutar muito para te compensar o mais rápido possível.
Durante este mês foste um herói. A lutares para sobreviver, depois para crescer, depois a cuidares dos pais, depois a ficares doente e a assustares-nos com as tuas idas às urgências e a noticia de uma operação por fazer. “Uma hérnia, coisa simples de prematuros” – dizem os médicos… mas nós estamos tão cansados de hospitais e tão receosos por vocês, que não queríamos mais essa partida…
Mas cá estamos para te apoiar, hoje e sempre. Para sempre.
Imagino-te a chamar-me, de calções, com um arranhão no joelho depois de uma subida à nossa arvore.
Estarei aqui para te proteger. Hoje e sempre.
Com um amor tão grande meu bebé maravilhoso. Obrigada. Obrigada meu amor por existires e me fazeres tão feliz.

Gabriel – 10 dias numa caixinha, 21 dias nos cuidados intensivos, vários à beira da morte.
Meu amor…
Por onde começo?
Saiste da tua caixinha para o hospital das lágrimas, como lhe chama o teu pai.
(O teu primeiro passeio de carro foi numa ambulância. Vês? As histórias que tens para contar aos teus amigos?)
Zanguei-me com os médicos que só diziam que podias não sobreviver. Quase gritei com o teu cirurgião. “Eu já sei que o meu filho pode morrer, agora por favor, fale-me das possibilidades de viver”
Tive mais medo ainda quando vi a anestesista chorar ao ver-me chorar abraçada a ti… Ela achava que eu não te veria mais…
De noite até de madrugada, dei-te colinho até te tirarem de mim.
(E ainda hoje estou à espera de que me voltem a deixar pegar-te)
Saíste de ao pé de nós rodeado de médicos a falar alto de palavras que não percebemos. Sabes que eras minúsculo naquela sala enorme, deitado numa maca também muito grande para ti, ao lado dos adultos?
E no entanto saíste para o bloco de operações como um guerreiro. Acordado, sem chorar. O olhar, o teu olhar gigante e profundo, a perscrutar tudo.
O pai e eu ficámos agarrados um ao outro a chorar. Mas tu foste sozinho, acordado, cheio de coragem.
E sabes? A verdade é que eles tinham razão…
Os teus 2 quilinhos eram demasiado pouco. Depois de 6 horas de angústia à espera que saísses da cirurgia, apareceram os teus médicos.
A tua operação correu mal.
“Pode morrer”
“Preparem-se para o pior”
Oh céus. Nunca a dor foi tão profunda. O nosso coração tinha dois andamentos.
Rebelde, horrorizado e apressado a querer à força saltar do peito, para de seguida estar desfeito, do tamanho do teu, quase sem bater.
Gabriel nunca na vida me hei-de esquecer daquelas horas. O pai e a mãe de mãos crispadas um no outro, num movimento de embalo louco a evitar as lágrimas a todo o custo. A sorver as lágrimas para que não tivessem hipótese de cair por meio da respiração incoerente, sôfrega e inanimada.
Era como se deixar cair as lágrimas fosse desistir de ti.
Só tínhamos 3 palavras por meio dos nossos olhares enlouquecidos pelas lágrimas paradas à força:
“Ele vai conseguir”
E eram repetidas até à exaustão.
Deixaram-nos entrar para te ver. Talvez para nos despedirmos de ti?
A azáfama à tua volta era inimaginável.
Os médicos alteravam as tuas medicações, consoante as respostas do teu corpo, como se de correctores na bolsa se tratassem.
A tua vida era um jogo naquele momento.
Eles foram génios (e para nós anjos) a jogar…e tu…
Tu, meu pequeno lutador, deste-nos a todos uma lição de vida.
A parte que era preciso corrigir da tua aorta, tinha 1 milímetro, meu amor.
Tão pequenina, que enquanto a tentaram coser, estiveste 1 hora sem sangue na parte inferior do corpo.
Os teus órgãos pararam. Fígado, rins, intestinos… tudo.
Mas em poucas horas tentaste assegurar-te de que não te diziam: vai morrer.
Que emoção e angústia a cada orgão que começava a funcionar… a primeira vez que voltaste a mexer as pernas…
Os rins foi o que te custou mais.
Dias e dias em que estávamos todos pendentes de fazeres xixi. Dias de diálise a fazer-te mal.
Equipas médicas de outras áreas dirigiam-se aos cuidados intensivos para saber se o bebé milagre já tinha feito xixi.
Algo tão simples e era naquele momento uma separação fulcral entre a vida e a morte, entre a saúde e a lesão.
Com a diálise e os rins sem funcionar, o teu corpo foi inchando, inchando. Deixei de te reconhecer. Deixaste de ter rosto, pernas, corpo. Eras uma bola inanimada.
Uma imagem que nenhum pai deveria ter que ver…
Desistiram da diálise. Tiraram-te a algália. Nada fazia efeito. Estavas por tua conta. E foi assim que de repente as tuas fraldas começaram a aparecer cheias…
Ao teu ritmo, à tua maneira. Ninguém te podia pedir mais, pequeno herói.
Ao fim de 10 dias vi os teus olhos de novo. Esses olhos imperiosos que encerram todos os mistérios da tua força…
Mas a cada alegria que nos davas, sempre algo te empurrava para longe de novo.
Foram os orgãos a recuperar devagarinho, as infecções por bactérias residentes no hospital, e quando estavas quase, quase a tirar o ventilador… uma crise respiratória e liquido no pulmão.
Mais um duro golpe que nos disseram poder levar meses a sarar nos cuidados intensivos.
Aqui aprendemos que nada é uma vitória segura. Estamos no sítio que ao mesmo tempo quer dizer “perigo de vida”. O sítio onde regredir ou surgir nova complicação ainda é possível.
Ainda és um bebé com tubos e agulhas por todo o corpo, constantemente picado e picado. Buracos e cicatrizes de uma luta infinitamente maior que tu.
Até ao teu ano terão ainda de corrigir o resto do teu coraçãozinho…
Mas eu gosto de me sentir feliz cada vez que melhoras e hoje deste-nos uma prenda magnifica.
Os rins finalmente estabilizados, as infecções negativas, retirar o dreno do pulmão…
Como disse a Suzy, és um exemplo de valentia e serenidade.
Como disse a Lígia, a sorte é que eu nao mais esquecerei estes momentos, mas tu nunca os vais lembrar.
Quantas vezes, quando pioravas, chegava ao pé de ti de lágrimas nos olhos, para te encontrar à minha espera, sozinho no meio das máquinas que apitam incessantemente… a sorrir…
Que inspiração que tu és.
Hoje fazes um mês de vida.
Nunca viste a chuva, nunca sentiste o vento nem um raio de sol…
Perdeste até o sabor do leitinho da mãe que, no meio das tantas lágrimas que foram acabando por cair, foi secando, secando… deixando a mãe em dores no corpo e na alma…
Ouves música. É tudo o que te posso dar…
As enfermeiras quando me ouvem cantar para ti dizem-me para não perder este tesouro…
Meu amor, como tão facllmente eu dava a minha voz e tudo o mais que tenha para te ver saudável…
Vejo as amoras secar sem as ter colhido, vejo o caminho encher-se de folhas secas, vejo as roupas mudarem de estação.
Não te vejo no teu berço. Não te vejo no meu colo…
Ai meu amor, tamanho amor para tanta dor…
Mas tenho tido um sonho…
Imagino-te quase adulto (será um baile da formação? será um casamento?) e convidas-me para dançar a música do Charlie Chaplin que te canto sempre.
“Although a tear, maybe ever so near
that’s the time you must keep on trying
Smile, what’s the use of crying”

Hoje fazes um mês.
Quase que parece que hoje eu faço um mês.
Para trás já nada faz o mesmo sentido.
A vida começou porque tu existes.

Meus bebés, benção da mãe que todos os dias deste mês agradeceu a sorte de vos ter…que as nossas mãos se entrelacem como agora… até ao último mês da minha vida.

Daniel e Gabriel:

O Daniel na sua vida de novas aventuras:

O Gabriel na sua luta pela vida:

Um mês de amor imenso:

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