A vida por fios – a neonatologia

Escrito a 22 de Agosto de 2015

A vida por fios – como é viver na neonatologia.
O sítio onde “moram” os prematuros é um mundo aparte. De repente nada mais existe a não ser aquela sala iluminada onde o sol entra por entre frestas e onde temos de nos habituar a conviver com os apitos constantes e as luzes a piscar intermitentes e frenéticas sem entrarmos em pânico.
Ali os rituais são sagrados, não se toca num filho sem ter as mãos banhadas em alcool, o corpo rodeado por plástico.
As medidas de avaliação são outras. O sucesso de um bebé mede-se aos mililitros. “Já bebeu 5 ml de leite, já pode aumentar para 10”. E aos fios. “Já pode tirar uma sonda, está a ficar mais forte”. E todas as pequeninas coisas são uma conquista gigante.
Na neonatologia os bebés têm as mãos negras. E os braços e às vezes os pés. Das vezes que são picados para fazer análises, colocar cateteres com medicação… em exercícios infindáveis de encontrar, e não perder, as suas minúsculas veias.
Naquela sala não se coloca o despertador para dar um remédio. As máquinas apitam e deixam os pais em alarme sobre o que se estará a passar.
Mas quase que há um despertador interno em cada mãe para lembrar a tiragem de leite com a bomba. É numa sala à parte, que por vezes cumprem horários iguais e se encontram. Aí, trocam-se as histórias. Histórias de muitas mães, de todas as classes sociais e várias culturas, que já sofreram muito. “Quantas gramas?” “Que complicações?”
Algumas histórias de dor:
” Os gémeos que estiveram cá 7 meses e quando já estavam fortes, um foi operado ao pulmão e morreu”
O que me deixa a chorar aflita a pensar nos meus, embora saiba que a mãe que contou a história não fez por mal.
Algumas histórias de esperança. “A minha menina nasceu há 3 meses com 500g. Era metade de uma mão. Está com 1800g à espera de chegar aos 2kgs e aprender a mamar”
Histórias de muito cansaço, de dias e dias naquela sala em que o sol só entra pelas frestas das janelas e as horas são contadas em função dos tratamentos e da tiragem do leite.
Mas histórias de muito amor, em que as vitórias se celebram com sorrisos e lágrimas de alegria.
“Hoje pode levar um colinho”
Ter o nosso filho nos braços durante dez minutos, ou uma hora, cheios de fios que passam a balançar-nos à frente, é o melhor momento do mundo.
“Hoje já mudamos nós a fraldinha”
E pensamos como mudar uma fralda em casa é a coisa mais fácil do mundo.
Porque ali, mudam-se as fraldas por entre duas pequeninas janelas. E por entre as perninhas a mexer e os bebés a barafustar é preciso lidar com os fios, com os cateteres, os termómetros, as sondas, os autocolantes… e as fraldas grandes demais para os nossos pequeninos.
Na maternidade, os bebés recebem as visitas da família toda, dos amigos todos. Passam de mão em mão, colinho em colinho, em primeiras demonstraçoes de amor.
Na neonatologia os pais estão sozinhos. As visitas são escassas em breves minutos e feitas sem tocar.
E a família e os amigos aguardam ansiosos por notícias, por fotografias, dia após dia.
Na neonatologia há dias bons e dias maus.
Anteontem o Gabriel (quem vai ser operado) apanhou uma infecção, tinha dificuldade em respirar, comia pouco. O nosso dia foi de dor, de angústia. E valeu-nos o colo um do outro enquanto pais para suportar a situação. No dia seguinte os níveis melhoravam, já pôde ter um colinho, já houve um alívio enorme. O Daniel saiu da incubadora para um bercinho descapotável, como diz o pai, tirou todos os fios e está a melhorar imenso, e o dia foi de esperança e sorrisos.
Navegamos em emoções ao sabor das notícias e dos sorrisos ou choro dos nossos filhos.
Os nossos meninos, para prematuros nasceram com um bom peso e umas semanas muito aceitáveis. O Daniel nesta semana ja aprendeu a comportar-se como um recém-nascido e em principio terá alta segunda-feira, enquanto que o Gabriel será transferido para outro hospital. Aqui são uns heróis.
Mas para a operação o Gabriel é muito pequenino, mas tambem nao se pode estar à espera que cresça para o operar.
E esse risco turva os pensamentos de cor cinzenta e é preciso agarrarmo-nos com força ao amarelo do sol que passa por entre as frestas das janelas.
Todos os dias lhe contamos como a vida é bela e como ele tem de ser forte para conhecer a chuva, o Outono, os passarinhos e as luzes da árvore de Natal…
Acalma-me e comove-me a reacção que ele tem ao meu canto, que ao 2º verso já o faz parar de chorar.
Se há alturas em que questionei ao destino o dom e a vontade de cantar, este é o momento em que não posso estar mais grata por ele.

Agradecemos a todos os colegas, amigos e amigos do facebook que através de telefone e por este meio, têm gerado uma onda de pensamentos bons em redor de nós.
À família e aos amigos do coração, não seríamos capazes sem a vossa força.
Obrigada a todos.

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Assustadoras e benditas…

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Uma mão que se torna gigante para tão pequenino tamanho…

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A primeira foto de familia, encarecidamente pedida às enfermeiras. Tirada na madrugada da 1ª operação do Gabriel. Antes da separação (ainda maior) dos dois… de nós… O medo de que fosse a primeira e última fotografia…

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